Jack Graham

Sobrevivente de um culto ao Deus da Morte.

Description:

Jack é um homem de 30 anos. Tem cerca de 1,80m e o porte robusto e musculoso. Possui cabelos longos e barba comprida. Usa uma capa pesada com capuz, mas não parece carregar muita coisa consigo além de sua mochila. Tem um olhar sério e andar rápido e inquieto, ainda que discreto.

Bio:

Jack teve uma vida tranquila até seus 25 anos, vivendo do campo com sua família e aproveitando o tempo livre na taverna. As maiores preocupações eram a colheita e garotas: e Jack já estava chegando na idade de casar e comprar uma vaca e algumas galinhas para si. Ao menos, eram essas as maiores preocupações daquela época.
Certa noite, a hora já havia avançado longamente e poucos restavam na taverna. Jack nunca ficava até tarde, mas aquela noite um divertido viajante estava pagando todas as bebidas. Com a fraca colheita e as peças de cobre rareando, não faria mal se algum tolo resolvesse pagar as rodadas de rum até que os problemas se tornassem dor de cabeça para o outro dia. Com um sorriso no rosto, Jack virou mais uma dose e descansou a cabeça rodopiante na mesa. Alguns minutinhos de olhos fechados e estaria pronto para mais uma rodada…

Tudo ficou muito confuso. Jack abriu os olhos devagar, sentia que estavam muito inchados. Era difícil ver detalhes em tamanha escuridão. A sede rasgava sua garganta. Sentia que estava naquela parede há horas, talvez dias. Seus pulsos já fraquejavam e sentia o formigamento das pernas chegando. Aquilo era só o começo.

O monge. Era assim que o chamavam, era assim que ele se apresentava. Jack nunca viu muito mais do seu rosto do que seus olhos brilhantes na penumbra. Suas mãos eram muito brancas, de dedos compridos e finos. Jack ouviu pouco de sua voz nos primeiros dias, menos ainda nos a seguir.

Apesar do encarceramento naquele lugar escuro e pedregoso – aparentemente uma caverna – visitantes eram frequentes no local. Outras pessoas com pesados robes entravam lá e conversavam com O monge. Outras entravam e logo eram acorrentadas ou jogadas em celas. Nada durava muito tempo ali dentro. Só Jack. E o monge.

As torturas eram diárias. Jack sofreu todo tipo de ferimento e abuso possível. Seus berro ecoavam por toda a sala, dias a fio. Confessou toda sua vida. Contou tudo o que seu cérebro conseguia lembrar, desde a infância até a vida adulta. Nada parecia saciar o monge. Ele apenas continuava com os abusos por horas a fio. Parava para fazer anotações e um eventual curativo, quando a situação parecia limite. Após alguns dias, Jack parou de gritar. Por falta de forças, por falta de esperança. Não havia o que fazer senão esperar a morte chegar para acabar com tudo aquilo. Mas o monge não permitiria isso, e se encarregara de tratar com muito cuidado das feridas de Jack.

Após algumas semanas, Jack foi deixado de lado e o monge começou a torturar outras pessoas e seres que chegavam no local. Monstros de todas as formas, seres das mais diferentes raças por ali passaram. Vivos e mortos. O monge se encarregava de abrir os cadáveres e fazer anotações por horas do que via. Jack logo perceberia que aquilo que ele e tantos outros receberam não era mera tortura: eram testes. Eles eram cobaias dos experimentos do monge.

Meses se passaram. Jack estava num estado deplorável de corpo e mente. Seu constante silêncio parecia incomodar alguns dos testes do monge. Certo dia, acordou com suas mãos e pés acorrentados. Estava fora da sua cela habitual. O monge anotava algo e, ao notar o despertar de Jack, se virou para o mesmo. Apontou para um balde e um escovão em um canto. Jack olhou para a sala mal iluminada e notou a enorme poça de sangue que se acumulava no meio dela. Se levantou devagar, receoso, e se pôs a limpar a poça com a força que tinha. O monge lhe deu as costas por todo o momento. Parecia completamente vulnerável, talvez pelos robes que lhe cobriam seu corpo inteiro mas suas mãos brancas e magricelas. Jack tremeu. A idéia de atravessar a cabeça do monge com o escovão era tentadora, mas seu corpo não lhe obedecia. Tudo que conseguia fazer limpar a poça de sangue no chão. Quando terminou a tarefa, o monge virou-se e o acompanhou para sua cela, sem tocá-lo em momento algum. Recebeu uma refeição completa aquela noite e na manhã que viria.

Jack recuperou sua forma ao final do primeiro ano. Auxiliava o monge nas mais diversas tarefas, quase todas sem trocarem uma só palavra. A boa alimentação e exercícios diários promovidos pelo monge fariam o corpo de Jack se tornar cada vez mais forte. Pelo segundo ano, Jack já auxiliava em outras tarefas, como finalizar desenhos e manuscritos rascunhados pelo monge. O monge treinou seus reflexos e sua respiração. Treinou sua paciência e força. Ao final do terceiro ano, o antigo, mirrado, inocente e analfabeto fazendeiro era outro homem. Seus músculos eram o dobro do que jamais sonhara em ter. Aprendera a ler através do monge e seus manuscritos. Descobrira, através deles, coisas que jamais imaginara possíveis. Por aquele tempo, o monge o libertou dos grilhões. Parecia ter certeza de que aquele novo homem era totalmente leal a ele, aquele que lhe dera essa nova vida, esse novo corpo, essa nova mente. E assim seguiram os meses, com liberdades cada vez maiores, tarefas cada vez mais minuciosas.

Cinco anos haviam passado. Jack nunca descobriu nada sobre o monge. Mal conhecia sua voz, nunca soube seu nome. Mas pelos visitantes e pelos manuscritos, descobriu muito do que era aquilo que acontecia ali. A Ordem da Morte Ampla, como era chamada, era um culto sobre a morte e a vida. Eles buscavam A Morte Perfeita, ainda que nunca tenha ficado claro a Jack o que isso queria dizer. Eles veneravam a morte, ainda que a pós-morte não os interessassem. O momento da passagem talvez parecesse importante. O culto, de certa forma, parecia ser da vida: venerar a morte com tamanho respeito e religiosidade parecia ser um ode a respeitar os momentos vivos. A falta de consideração em tirar a vida de outros seres mostrava que a vida é um bem gracioso e que deve ser bem aproveitada como a maior dádiva. Aqueles que não conseguem valorizar esse bem precioso como a maior das bênçãos deveria ser eliminada de seu privilégio. Jack nunca leu isso em qualquer lugar, mas era o que fazia sentido em sua cabeça. Ao menos era o que pensava quando, após esses anos livres de tortura, retornou para os testes do monge. Nunca houve uma explicação. Simplesmente acordou preso num barril com água gelada e ali foi mantido por três dias. Sessões de sufocamento e envenenamento seguiram esses dias.

Todo aquele treinamento. Todos aqueles cuidados. Jack sentia que havia sido preparado ostensivamente para ser a cobaia perfeita, talvez o candidato ideal para agraciar o monge com o resultado da tal Morte Perfeita. Os pensamentos eram muitos. Jack se sentia um tolo por não ter feito nada. Tantas oportunidades em vão, tantas chances para acabar com aquilo e não o fez. Bobagem. O monge teria conseguido salvar sua vida no último segundo. Era impossível fugir daquilo. Os exercícios de respiração e meditação foram úteis, e sua mente era refugio contra a dor. O monge parecia contente com o resultado.

Algumas semanas depois, Jack acordou em sua cela após mais uma noite de quase-morte. O local estava vazio. Os outros corpos ainda estavam ali. Os ocupantes das outras celas ainda estavam ali, nos costumeiros silêncios ou gritos de cada um. Jack suou frio. O monge nunca deixava o local. Nunca, em cinco anos, deixara o local. Visitantes passaram e ficaram. Mas só Jack e o monge eram constantes naquele lugar por todo aquele tempo. E agora o monge não estava ali. E Jack tampouco ficaria ali muito mais tempo.

Desfez-se de suas amarras e, com todas as suas forças, conseguiu entortar as barras da cela o suficiente para passar, controlando sua respiração com seus exercícios de meditação, através das barras. Os outros ocupantes das celas começaram a fazer um barulho em uníssono nesse momento, o coração de Jack disparou. Sua mente congelou a imagem daquele momento por um segundo, e milhares de segundos pareceram passar naquele momento. Sua garganta nunca esteve tão seca. Jack pegou uma capa e disparou pela porta o mais rápido que suas pernas conseguiam aguentar. Os gritos desesperados ecoaram por alguns segundos nas suas costas, e por mais outros dentro de sua mente. Depois disso, somente o vazio e sua respiração. E assim iniciavam os dias daquele novo homem.

Jack Graham

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